7.8.10

A Mesa



Entrando-se na sala, vê-se que ela não está vazia: apenas uma mesa comprida posicionada no centro do ambiente. Sobre a mesa há caixas, dispostas como pratos a espera de convivas. À primeira vista, as caixas parecem iguais.

Aproximando-se da mesa, vê-se que a caixa é branca. A cor da caixa é branca. A pele de matéria translúcida que envolve a caixa é branca.

As faces superiores das caixas são abertas; estão cheias de água. Transparente. No fundo de cada caixa dois objetos. Um parafuso e uma garrafa. O parafuso é grande, a garrafa é pequena, então há uma pequena diferença de tamanho entre ambos, e é assim em todas. Cada objeto é de uma cor.

A matéria desses objetos é a mesma que recobre as caixas, cera. Um parece ocre, outro azul, outro vermelho como a terra fértil, e opacos.

Apesar de suas formas bem reconhecíveis, esses objetos de cera não parecem ser o que a forma sugere, mas outra coisa. Como ex-votos. Pois uma garrafa e um parafuso não podem ser usados como garrafa e parafuso quando são feitos de cera. E não há nada que indique-lhes utilidade, finalmente, presos ao fundo das caixas e cobertos de água.

O que sugere tocá-los. Sentir-lhes a temperatura, a textura, como tocam de volta a pele. Mas para tocá-los deve-se mergulhar a mão dentro da água, até o fundo da caixa. A água deve estar fria. O que não deixa a vontade. Parece que tocar a água seria como contaminar algo puro. A água é pura e fresca.


5 comentários. clique nas imagens para aumentá-las:

Luciana Bertarelli disse...

Isso me lebra aquelas imagens de um ferreiro que joga um objeto incandescente na água fria para que endureça... o mesmo que aconteceria com a cera... essa coisa mágica da água...

Daniela Maura disse...

lu fico pensando no que essa magia da água faz no corpo (inclusive no que do corpo não é corpo)

gostei de ler, é como uma imagem, lembrei de uma instalação que vi em inhotim: http://www.inhotim.org.br/novenovosdestinos/pt/release_janet-cardiff--george-bures-miller.html

são como sonhos narrados, e na experiência de estar lá ouvindo, vi, percebi e senti tão nitidamente, como uma descoberta de um novo modo de ver

Marcio disse...

nossa Lu, não tinha pensado nessa relação com essa operação, e agora parece óbivio! É na água, na sua frieza, que os objetos de cera ganham solidez, assim como a têmpera do aço feita pelo ferreiro. Um dos significados da água é a de passagem, muito forte isso.

Quando escrevi esse texto, estava curioso com o formato narrativo da imagem. Essa imagem é um projeto de um trabalho, que comecei a imaginar como seria. mas antes mesmo de fazer qualquer desenho ou esboço, imaginei que a Narrativa poderia ser um meio para dar forma ao trabalho. Tentando imaginar o ponto de vista do observador que encontra esse ambiente à frente. Como esse ambiente ficou deslocado, sem referências de que espaço é este, ficou com esses contornos oníricos, de sonho, acho.
Dani, quero muito ir no Inhotim quando formos visitar vocês aí tá?

Daniela Maura disse...

mais que combinado!

Daniela Maura disse...

estava aqui lendo um livro, um trecho que fala sobre a relação da imagem com a linguagem escrita e seus códigos (vida e morte da imagem)...e pensei como seria enviar fotos com os trabalhos inseridos num espaço e pedir descrições dessas imagens e juntar num texto trechos de diferentes descrições...